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domingo, 28 de agosto de 2011

meu caro rapaz, meu carrapato

Agora me passou pela cabeça que eu, quando resolvo escrever nesse blog, tenho tendência de falar sobre música e literatura e, se possível, sobre relações entre essas duas maravilhas. É o caso do post sobre "A Rose For Emily" , conto do Faulkner e música dos Zombies, e do post sobre "A Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" , do Saramago (post que hoje me parece bem mal escrito e mal pensado, mas vou deixar pra lá essa questão). Isso pra dizer que hoje, quando subitamente resolvi escrever qualquer coisa, a idéia novamente foi falar de música e literatura. Mas enfim, o que se há-de fazer senão colocar a idéia em prática?

Pois bem: o jovem aqui à esquerda é o Tom Zé (sim tô falando do Tom Zé de novo), ou melhor, foi o Tom Zé. Não que ele esteja morto, é que hoje ele é mais velhinho e mais barbudo. Não que isso venha ao caso. O que vem ao caso é o seguinte: Lá no Estudando o Pagode (2005), tem uma música chamada Quero Pensar (A Mulher de Bath). Ora, eu sempre escutava a música, mas nunca dava bola pro subtítulo entre parênteses, sabia que ele estava lá, mas era uma informação aleatória vagando como um fantasma errante na minha mente. Mal sabia eu que haveria de chegar o dia em que tal fantasma encontraria sentido pra sua existência!


Explico: lá estou sentado no primeiro andar da faculdade de economia lendo um texto sobre literatura inglesa dos tempos do êpa (século quatorze), quando me aparece uma certa Wife of Bath. Instantaneamente eu tive aquele pensamento clássico "pô, eu conheço isso de algum lugar", foi então que eu perguntei pra essa tal Wife of Bath: "você vem sempre aqui pelas redondezas da minha mente, meu bem?". Não preciso nem dizer que quem me apareceu em seguida foi o fantasma aquele e uma relação muitíssimo peculiar se revelou pra mim: Tom Zé e literatura inglesa do século quatorze. Quem diria hein?

Só para contextualizar então: olha esse retrato aqui do lado. O nome desse cara é Geoffrey Chaucer. Tem uns quantos estudiosos de literatura inglesa que consideram ele o primeiro grande escritor de língua inglesa (não concordo muito com a parte do "primeiro", por razões que não vêm ao caso no momento, mas com a parte do "grande escritor", concordo definitivamente). Mas qual é a dele, então? Já digo: ele é o autor das Canterbury Tales, um livro de contos originalmente escrito em verso e em Middle English. O livro tem uma história de fundo, que os teóricos chamam moldura (pra quem leu As Mil e Uma Noites ou Decamerão, é isso), que é a seguinte: trinta peregrinos partem de Londres com destino à Cantuária (Canterbury), viagem de mais ou menos 95km, distância que era percorrida em quatro dias. Resumindo: para que o tempo passe mais rápido, esses peregrinos resolvem contar histórias.

E é aí que entra a Mulher de Bath: ela é uma dentre os peregrinos. A parte dedicada a ela no livro é bastante interessante, tem no máximo trinta páginas, recomento muito (li uma adaptação em prosa para o inglês moderno, mas sei que se encontra tradução para o português). Olha como é interessante: em pleno século quatorze, o Chaucer apresenta uma mulher que foi casada cinco vezes, que prega que a mulher tem que mandar no casamento e que conta como brigava com seus falecidos esposos para que eles se submetessem a ela. A história que ela conta é bem interessante, mas vai ficar de fora do post. Para quem se interessar, recomendo uma animação que tem no youtube. O vídeo só tem seis minutos e é muito bem feito, mas só vale pra quem entende bem inglês. Uma única ressalva: a autora da animação muda o final da história - o que eu, particularmente, achei bem legal.

Já falei muito, mas só pra terminar: pega um relato de uma das brigas da Wife of Bath com um dos maridos e compara com a discussão na música do Tom Zé (Quero Pensar). Daí tu entende o porquê de o maluco-gênio-baiano ter colocado a Mulher de Bath no subtítulo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ainda sobre vermes


Os mortos de Sobrecasaca

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos.
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava,
que rebentava daquelas páginas.



*o autor, Drummond.

sobre vermes

Os vermes

"Ele fere e cura!" Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos: nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído.
O Verme

Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.


*o autor, Machado de Assis.
note-se que o primeiro é o décimo sétimo capítulo de Dom Casmurro. o segundo é um poema que encontrei por aí, nos googles da vida.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

antônio josé


Recentemente parei pra pensar em qual seria o nome do Tom Zé. A primeira suposição - que se confirmou certa - foi que é Antônio José.
Antônio José, mesmo nome do "Judeu", autor brasileiro do século XVIII, mas mais conhecido em Portugal, até porque foi lá que ele viveu a maior parte da vida.
Autor de Guerras de Alecrim e Manjerona, o judeu morreu queimado na fogueira (santa inquisição!). É uma leitura interessante, principalmente pros interessados em teatro.
Me passou pela mente agora colocar aqui meu trabalho sobre o judeu. Vou fazer isso! Mas no próximo post. Esse post aqui é sobre o outro Antônio José.

Na verdade só quero postar um pedacinho de uma música - uma dentre tantas geniais!
A música em questão é O Amor é um Rock, que é bem boa toda ela, mas tem uma parte que talvez se possa chamar de sublime no sentido que a palavra é usada por Longino no seu Tratado do Sublime.
A referência pode ser ignorada, ou pesquisada, se assim se quiser. Não estou com vontade de falar sobre isso agora...
Mas enfim, sublime não a letra, mas o conjunto letra e melodia, a parte se destaca na música com uma simplicidade que é bonita por demais!
Sem mais delongas, colo aqui em baixo o trecho em questão e convido quem por ventura vier a ler isso a escutar a música.

Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou
E logo morreu.
Nesta solidão,
Sem ter alegria
O que me alivia
São meus tristes ais.

São prantos de dor
Que dos olhos saem
Pois que eu bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei jamais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

a rose for emily


Ovindo A Rose for Emily (Zombies), decidi jogar no google pra ouvir acompanhando com a letra. Até aí nada de mais, cena corriqueira no meu dia-a-dia. O que tem de mais vem agora: descobri que a música foi inspirada em um conto de mesmo nome do William Faulkner.

Um belo par: bela canção, belo conto. No centro de tudo, a pobre Emily. A música mostra a personagem destinada a estar só, not a rose for Emily... No conto se conhece a tragédia da última Grierson, a partir do ponto de vista dos vizinhos conservadores do século XIX/início do XX: isolada, solitária, alienada, louca. Quem entenderia Emily? Se Emily não paga impostos é por que o xerife Sartoris a isentou. Não importa se o xerife Sartoris já morreu há mais de dez anos. Emily não paga impostos em sua cidade.

Não é preciso, obviamente, ler o conto para dizer que se pode ter um completo entendimento da música, afinal esta foi apenas inspirada naquele; podem tratar da mesma personagem, mas o fazem de forma diferente. De qualquer forma, são dois pedacinhos de arte que devem ser conhecidos. Não necessariamente juntos, mas se possível, que assim o seja. A intertextualidade enriquece o valor das obras. Enriquece ambas as partes, não apenas o "inspirado" mas também o "inspirador". Meu entendimento de Bola de Sebo (Maupassant) foi acrescido de significados com Geni e o Zepelim (Chico), tenho certeza disso e por aí vai. É por isso que gosto de intertextos: criam possibilidades.

intertextualidade rules!

domingo, 5 de dezembro de 2010

a bactéria e a nasa

descoberta a bactéria que pode usar arsênio em vez de fósforo no seu dna. saber que fósforo não é elemento essencial para que exista vida faz com que saibamos que a vida pode existir em mais ambientes do que pensávamos. estamos um passo mais próximos de descobrir vida extraterrestre.

enquanto isso, aqui, na terra, a fome continua. não fui eu quem escreveu isso. foi Saramago, num poema chamado "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta".

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.


sintética contextualização:

O episódio do Velho do Restelo, situado no final do quarto canto d’Os Lusíadas, é um dos mais marcantes na obra de Camões. O Velho é uma personagem que apresenta o lado negativo das navegações, do imperialismo. Ele critica a viagem, dizendo que é motivada por ambição e por cobiça, e que, com a saída dos homens, o país fica desprotegido. Este episódio faz um forte contraponto ao restante do poema épico, o qual exalta o reino português e sua expansão ultramarina.

A figura do Velho do Restelo serviu de inspiração a José Saramago para a escrita de Fala do velho do restelo ao astronauta, poema publicado em 1966 em Os Poemas Possíveis. No século XV, o Velho se dirigiu ao marinheiro, no século XX, dirige-se ao astronauta: assim como Camões criticou o marinheiro imperialista que, por cobiça, deixou sua terra desprotegida, Saramago critica a guerra fria ("o astronauta"), em que muito se gastou recursos com armamento e com a corrida espacial enquanto faltavam recursos para acabar com a fome no mundo.

Só para deixar registrado: há um cantor português que musicou o poema do Saramago. Nada que, na minha opinião, valha a pena ser conhecido. Sabe quando uma melodia combina perfeitamente com a letra? Sabe? Pois esse caso é exatamente o contrário.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Enuveado

Assisti domingo a O Capote, do neelic. A montagem me deu vontade de reler a novela de Gógol que deu origem à peça, mas como não a tenho, apelei para uma outra novela, cuja protagonista me lembra muito o Akaki. Reli, hoje, Bartleby, o escrivão, de Melville e tive uma experiência tão melancólica quanto a da primeira leitura, senão mais.

E se eu achasse melhor não fazer nada além de encarar uma parede vazia pelo resto da vida? Alguém tem o direito de deliberar em meu lugar? O mundo tem o direito de dizer o que devo e o que não devo fazer para ser feliz? O mundo tem o direito de dizer que devo ser feliz? E se eu achasse melhor não ser feliz? Haveria algo de errado em mim ou haveria algo de errado em todos os que pensam que há algo de errado em mim? Se alguém não vê o mundo da forma como nós o vemos, temos nós o direito de chamar esse alguém de louco e enclausurá-lo para o resto da vida?

domingo, 22 de agosto de 2010

Outras vezes, uma palavra é quanto basta.

“Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terras de tufões. Outras vezes, uma palavra é quanto basta.”

A Jangada de Pedra, José Saramago

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobrado

Ontem tive dor nas costas. Dor nas costas de tanto estar sentado. O novo (e último) filme do Shrek é ótimo, mas mesmo assim eu cansei. É penoso, para mim, ficar sentado dentro de uma sala de cinema por duas horas. Pior ainda, no mesmo dia, mais duas horas sentado em um teatro.

Mesmo não tendo sido muito confortável, ter tido dor nas costas não foi em vão. Como já disse, o filme foi ótimo. A peça que vi, O Sobrado, foi impecável. Há tempos não assistia a algo tão bom no teatro. Sou meio avesso a adaptações de livros, e a experiência que tive com a minissérie O Tempo e o Vento foi muito pior do que eu esperava: o sobrado não se parecia nem um pouco com aquilo que eu tinha imaginado e, em nenhum instante, o Tarcísio Meira convenceu como Capitão Rodrigo. E talvez tenha sido por isso que, ao ouvir pela primeira vez, no ano passado, que um certo grupo Cerco estava apresentando uma montagem inspirada n'O Tempo e o Vento, não tive muita vontade de ir assistir. Acabei mudando de idéia ao saber das opiniões de amigos, sem falar dos comentários positivos de Luis Fernando Verissimo e de Maria da Glória Bordini.



O Sobrado é o último capítulo (cronologicamente falando) d'O Continente, primeiro livro d'O Tempo e o Vento (Erico Verissimo). A peça, apesar de homônima ao capítulo, não se restringiu a acontecimentos apenas d'O Sobrado, mostrando, em um plano do passado, acontecimentos de outros capítulos. Cenas envolvendo a personagem Bibiana, como seu último encontro com o Capitão Rodrigo (em que ele lhe pede que frite uma lingüiça para esperá-lo), seus conflitos com a nora Luzia e a morte do filho ajudaram a compor a personagem, que, de outra forma, seria apresentada apenas como uma "velha caquética" que fica se balançando na cadeira de balanço. O roteiro fragmentadíssimo, como o livro - o próprio capítulo O Sobrado é apresentado em fragmentos -, foi extremamente fiel à obra de Erico, o que pressupõe profundidade do grupo ao estudar o texto.



Os atores estavam ótimos, em especial Isandria Fermiano (Maria Valéria) que representou muito bem a personagem que, para mim, é a grande personagem feminina d'O Tempo e o Vento. Também o cenário, ou melhor, sua ausência estava adequada: a montagem me fez ver o sobrado da forma como eu o tinha imaginado. Ademais, a simplicidade (apenas aparente, pois nada é simples na montagem de uma peça) em tudo era fascinante: tecidos brancos que transformavam-se em qualquer coisa, a música tocada pelos atores, a luz vermelha para o plano da memória etc.



Fiquei quase duas horas sentado, mas nem a dor nas costas me deixou menos interessado no que ocorria em cena. A esta peça eu assistiria uma outra vez, certamente. Além do mais, ela deixou em mim muito mais forte o sentimento de que preciso reler o quanto antes a grande obra de Erico (e também meu romance predileto). Como disse Luís Franke (o ator que interpretou Fandango) após o final da peça, Viva Erico Verissimo!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Amante


A luz caía do céu em cascatas de pura transparência, em trombas de silêncio e imobilidade. O ar era azul, podia-se apalpá-lo. Azul. O céu era aquela palpitação contínua do brilho da luz. A noite iluminava tudo, todo o campo das duas margens do rio a perder de vista. Cada noite era especial, cada uma era o próprio tempo de sua duração. O som das noites era o dos cães do campo. Uivavam para o mistério. Respondiam de aldeia em aldeia, até a consumação total do espaço e do tempo da noite. (DURAS, 2007. p.60)

Mais uma experiência fascinante com Marguerite Duras. Há alguns meses havia lido dois contos, "O homem sentado no corredor" e "A doença da morte", e ambos me induziram a inúmeras reflexões. Com minha mais recente leitura não foi diferente. Hoje terminei de ler "O Amante", a (provavelmente) mais conhecida obra da autora vietnamita, que a publicou aos setenta anos, em 1984. Sinto uma grande dificuldade para falar sobre o romance, pois é bastante diferente daquilo que costumo ler; não consigo dizer que me apaixonei pelo modo de narrar, pelas personagens, ou mesmo pelo enredo, como o faço com outros livros. Tudo nela é singular: a narrativa dividida em trechos fragmentários, os vários passados entrelaçados, a coerente incoerência das personagens, as palavras que se unem para formar não apenas uma história, mas imagens, sons, emoções. Ainda assim, agora que acabei de ler, sinto como se estivesse prestes a ter uma crise de abstinência das palavras de Duras. Reconheço que exagero, mas não deixo de afirmar que as palavras dela têm algo de enfeitiçante. Tentar explicar a experiência é inútil. Não há palavras que descrevam as palavras de Marguerite Duras senão elas próprias. Fica registrada, pois, a recomedação.

[...] a vida é imortal enquanto vive, enquanto está em vida. [...] a imortalidade não é uma questão de mais ou menos tempo, não é uma questão de imortalidade, é uma questão de alguma outra coisa que continua desconhecida. [...] é tão falso dizer qe ela não tem começo nem fim quanto dizer que ela começa e acaba com a vida do espírito, pos é do espírito que ela participa e da busca do vento. Olhem as areias mortas dos desertos, o corpo morto das crianças: a imortalidade não passa por ali, ela para e contorna. (DURAS, 2007. p. 75)

Referência:
DURAS, Marguerite. "O Amante". Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

post scriptum direcionado à senhorita artificielles
1. as cenas são no dia 06 de agosto, às 20h na Alvaro Moreyra, esteja lá.
2. sim, o neelic é o do HPSP.
3. O título do blog ficará assim temporariamente. Aceito sugestões se isto incomodar :)

sábado, 24 de julho de 2010

Eventos Teatrais

Pois bem, depois de alguns meses trabalhando na peça Círculo de Giz Caucasiano (Bertolt Brecht), no mês passado resolvemos eu e meus colegas de grupo do neelic abandonar o Círculo e partir para outra. Motivo? Bem, quem leu a peça (e a quem não leu, sugiro que leia) sabe que possui inúmeros personagens (não tenho o número certo. chuto uns setenta) e o nosso grupo é composto por cinco pessoas. havíamos resolvido o assunto cortando vários elementos, cenas, personagens e ainda teríamos um(a) ator/atriz convidado(a). Dessa forma eu faria nada menos do que seis personagens, o que é completamente possível, mas me assustava um pouco. São eles: Príncipe Gordo, Simão Chachava, Hoteleiro, Camponês, Frade e Cunhado (originalmente Cunhada). Tudo andava tranqüilamente e talvez esse tenha sido o problema. No ritmo em que vínhamos ensaiando, não conseguiríamos fazer nossa estréia marcada para a terceira semana de setembro (adiar seria inviável, visto que já havíamos mudado a data, originalmente terceira semana de julho). Como um agravante, o clima dos ensaios havia ficado bastante tenso nos últimos dias, resultado da preocupação com a falta de tempo para cumprir nosso objetivo.

Toda essa história para chegar a duas coisas:

Primeiro: estamos trabalhando agora numa peça, também do Brecht, chamada Os fuzis da Senhora Carrar, muito mais adequada à nossa situação, menos personagens, menos complexidade de fábula, mas nem por isso menos interessante. A situação de uma mulher que resiste a aceitar a guerra (Espanha, 1936) é emocionante e deixou-nos todos motivados. Estrearemos, portanto, na terceira semana de setembro.

Segundo: o trabalho feito com o Círculo não será posto fora. Além de termos aprendido muito com a experiência, teremos oportunidade de mostrar o trabalho em uma mostra de exercícios. Apresentaremos algumas das cenas do Círculo em que já havíamos trabalhado. Será uma apresentação de cenas de três turmas do neelic, com duração aproximada de 1h30. Portanto, fica a dica: Dia 06 de agosto às 20h na Sala Álvaro Moreyra, apresentação de cenas do Círculo de Giz.

P.s.: Sobre o Círculo de Giz Caucasiano: A protagonista Grucha acolhe Miguel Abashvíli, bebê abandonado pela mãe Natella Abashvíli, mulher de um governador da Geórgia. A história segue Grucha mostrando as dificuldades por que passa para proteger o menino. Ao final, a mãe de sangue reivindica a guarda de seu filho, sendo decidido em tribunal quem, de fato, merece ficar com a guarda de Miguel: Grucha ou Natella. Qualquer semelhança com o episódio bíblico das duas mães com o rei Salomão (Primeiro livro de Reis, capítulo três, versículos 16 a 28) não é mera coincidência.


ATUALIZAÇÃO:
complementando: de três a oito de agosto, acontecerá o "teatro de presente". apresentações e palestras com entrada franca. no link tem o cartaz com a programação. vale conferir.

ctrl+c e ctrl+v

estudos literários


após um vácuo de postagens durante o qual cheguei até a esquecer que possuo um blog, o vácuo de coisas produtivas resultante de estar em férias me fez lembrar de que ele existia. bom, o que pensei para esta postagem não é nada mais do que um ctrl+c e um ctrl+v. resolvi postar o texto que a Mônica e eu escrevemos para a disciplina de estudos literários. não que o texto esteja bom, afinal fizemos com aquela boa vontade (he) e a motivação de final de semestre. recomendo a leitura dos textos a que me refiro no texto (Labyrintho Difficultoso e Preciosidade), portanto coloquei links para quem se interessar. com algumas poucas alterações, o que entregamos à professora é o que segue: Não sendo uma tarefa fácil conceituar literatura, Antoine Compagnon, em O Demônio da Teoria, levanta diversas questões a respeito de o que comumente se é relacionado ao que se entende pelo termo literatura, semelhantemente ao que faz Jonathan Culler no capítulo “O que é literatura e tem ela importância?”. Com o intuito de comprovar o pertencimento do poema “Labyrintho Difficultoso”, de Frederico Barbosa e do conto “Preciosidade”, de Clarice Lispector à literatura, basear-nos-emos em alguns dos aspectos apontados pelos dois teóricos.


A questão mais recorrentemente associada à literatura é o trabalho com a linguagem. Barbosa, em “Labyrintho Difficultoso”, não apenas trabalha a semântica do texto – algo que o aproxima das antíteses barrocas, contrastando o dia com a noite, o mais com o nada -, mas também a disposição das palavras no papel, que possibilitam uma multiplicidade de significados e interpretações. A questão da disposição gráfica diferenciada é valorizada pelo cânone apenas muito recentemente, com o modernismo. Isso nos remete a um aspecto abordado por Culler, qual seja a volatilidade do cânone. “[...] o próprio cânone dos grandes escritores não é estável, mas conhece entradas (e saídas): a poesia barroca, Sade, Lautréamont, os romancistas do século XVIII são bons exemplos de redescobertas que modificaram nossa definição de literatura.” (COMPAGNON, 2003. p. 34) Se olharmos o poema de Barbosa sob uma perspectiva de um estudo mais clássica, não consideraríamos seu texto como literário, já que não se encaixa em padrões estabelecidos por “críticos” mais clássicos, especialmente se pensarmos nas normas aristotélicas, que por muito tempo influenciaram a literatura ocidental. A questão é que o contexto histórico também define o que é literatura: se fosse lido no século XVIII, antes das mudanças provocadas principalmente por Mallarmé no conceito de poesia, possivelmente “Labyrintho Difficultoso” não seria considerado literatura.


No caso de “Preciosidade”, podemos nos aproveitar basicamente das mesmas considerações que fizemos ao analisar o poema de Frederico Barbosa. O trabalho da linguagem é evidente e provê uma beleza estética: entre outros, citamos inversões - “Era feio o ruído de seus sapatos” (LISPECTOR, 1998. p. 84) -, repetições e omissões - “É que eles “sabiam”. E como também ela sabia, então o desconforto. Todos sabiam o mesmo. Também seu pai sabia. Um velho pedindo esmola sabia.” (LISPECTOR, 1998. p. 84) A repetição do verbo sabia enfatiza seu significado, gerando a conseqüência de que o fato de que todos “soubessem” aumenta o desconforto da protagonista. A omissão do objeto do verbo saber deixa implícito o que é que, de fato, “todos sabiam”, podendo-se inferir que se trata da virgindade da protagonista. Outro aspecto a ser notado é a possibilidade de mais de uma interpretação: a preciosidade da protagonista não é explicita no texto e pode ser entendida como sua virgindade, sua inocência, ou até mesmo o resguardo de sua interioridade. As alegorias – as mãos que tocam a protagonista como uma violação que a obriga a tornar-se “sexuada”, a perda da preciosidade e a aquisição de sapatos novos como essa transição para a vida adulta - também mais valorizadas pelo cânone em tempos mais recentes, pois incompatíveis com a objetividade clássica, são, da mesma forma, razões para dizer que o conto de Clarice é literatura.


Concluímos lembrando Culler “Na maior parte do tempo, o que leva os leitores a tratar algo como literatura é que eles a encontram num contexto que a identifica como literatura: num livro de poemas ou numa seção de uma revista, biblioteca ou livraria.” (CULLER, 1999. p.34). Talvez se encontrássemos “Labyrintho Difficultoso” em uma revista de jogos infantis ou trechos de “Preciosidade” em uma notícia de jornal, não os consideraríamos literatura. Como afirmamos anteriormente – com base em Culler e Compagon -, contexto histórico, cânone e linguagem são apenas alguns dos aspectos a serem considerados numa análise literária, e não devem ser tomados por definidores absolutos da literariedade.


As referências


BARBOSA, Frederico. "Labyrintho Difficultoso". In:_____. Nada Feito.
COMPAGNON, Antoine. "A Literatura". In:_____. O demônio da literatura: Literatura e senso comum. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
CULLER, Jonathan. "O que é literatura e tem ela importância?" In:_____. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999.
LISPECTOR, Clarice. "Preciosidade". In:_____. Laços de Família. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998.